O amor acabou

"Bem, o amor acabou. Todos os fatos, indícios depõem a favor. É hora de esquecer a pessoa: não há mais espaço nem tempo para o romance. È uma opinião unânime. E, embora toda unanimidade seja duvidosa, acabamos por acatá-la. Afinal, até um motorista de táxi com quem você teve um breve contato e para quem decidiu relatar a sua historia de amor lhe diz: “Esqueça, esqueça...”.
Todos os princípios da racionalidade estão ativados, tudo preparado para implodir o amor que durou digamos 1 ano. Contagem regressiva: 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0 e... nada acontece. Sua mente ainda está ligada àquela pessoa de uma forma obcecada, diria neurótica.
Afinal, quando acaba um amor?
O amor, o verdadeiro, é claro, nunca acaba. Você pode tentar convertê-lo em ódio, indiferença, antipatia, ou seja, existem centenas de técnicas para esquecer que você ainda ama quem não quer mais amar. Todas elas ineficazes. O senso comum (o velho aliado da estupidez) sempre aponta um caminho: o tempo. O tempo nos faz esquecer. E pronto. Como se vivêssemos no futuro. Se viver no presente já é um malabarismo, imagine viver no futuro...
O que realmente está por detrás desse sofrimento que a separação nos provoca é o apego: apega-se a alguém como se esse alguém fosse espelhá-lo para sempre. Mas o “para sempre”, como disse aquele poeta russo, sempre acaba. E o espelho, quando se estilhaça, é claro, provoca ferimentos. Impermanência, sempre ela.
“Amor para todos os seres sencientes”, gritam os budistas no alto do Himalaia. Amor pelo verme, pelo vaga-lume, pelos beduínos, seus camelos e tudo que pulsa. Mas por que cargas d’água direcionamos todo nosso amor a uma só pessoa? Não sei de onde vem essa tradição. Talvez seja cósmica. Aliás, como tudo o que existe na Terra. Mas suponho que o amor por uma só pessoa seja um dado histórico, cultural. Romeu e Julieta. Um corpo só, duas pessoas. Um morre sem o outro. Eis um dos arquétipos do que chamamos amor. Existem dezenas, centenas de outros, mas a base da maioria deles é sempre o apego. A idéia alucinada e vertiginosa de que sem aquela pessoa sua vida não tem sentido. É cruel, mas é nisso que nascemos acreditando.
O apego, ou seja, a falsa idéia de que possuímos algo ou alguém, é, sem duvida, a causa de um tremendo sofrimento que há tempos vem atormentando a humanidade. Quando as luzes se apagam, (e não tenham dúvida: elas se apagam para todos nós), todas as nossas posses e bens materiais somem na escuridão. Cercas, contas bancarias, pessoas, elefantes de circo. Não fica pedra sobre pedra.
O amor está sempre começando e acabando. Como as ondas no mar. Como as nuvens no céu. Porque em tudo e em todos os tempos e lugares a impermanência reina absoluta.
Ignorá-la é o mesmo que sofrer."
( Autor desconhecido)

<< Home